Memória autobiográfica fortalece identidade e protege saúde mental dos idosos

Memória autobiográfica fortalece identidade e protege saúde mental dos idosos

Iniciativa do Cora Premium Residencial Senior transforma histórias de vida em ferramenta de cuidado e bem-estar. No mês de março, o Rio de Janeiro celebrou 461 anos. Na mesma data, no Cora Premium Residencial Senior, Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) localizada na capital fluminense e pertencente à BSL Saúde, a comemoração ganhou um significado ainda mais profundo: transformar lembranças da cidade em ferramenta de cuidado e bem-estar emocional. A proposta da equipe foi estimular residentes a compartilhar suas memórias mais marcantes da Cidade Maravilhosa. O resultado foi um momento de relatos afetivos, risos, emoção e identidade reafirmada.

“Quando o idoso relembra sua história, ele reafirma quem é, como se fosse a continuidade do selfie graças à conexão entre passado e presente. Ele deixa de ser apenas alguém que envelheceu e volta a ser protagonista da própria trajetória. Isso fortalece identidade, pertencimento e autoestima”, explica a gerontóloga Ana Julia Marinho, do Cora Premium.

    Mais do que uma atividade comemorativa, a iniciativa tem base científica. Um estudo piloto publicado em 2025 avaliou os efeitos de uma intervenção de reminiscência estruturada (Remember-ME) em adultos idosos que vivem em comunidade. A pesquisa mostrou que o programa melhorou a qualidade subjetiva da memória autobiográfica, aumentou a satisfação com a vida e reduziu o sentimento de solidão. Isso evidencia que praticar a evocação de lembranças não apenas reforça a memória, mas também melhora marcadores importantes de saúde mental em idosos.

A rua sem saída que virou mundo

Entre os relatos mais emocionantes esteve o de Nair Souza, 86 anos. Natural de São Paulo, ela chegou ao Rio ainda jovem, com quatro filhos pequenos. “Eu vim de São Paulo e minha chegada foi na Tijuca, com meus filhos ainda pequenos. Era uma rua sem saída, a João da Mata. Uma casa aconchegante, cheia de crianças. Meus filhos brincavam o dia inteiro entre si e com as crianças vizinhas”, relembra. Nair fala com brilho nos olhos das festas juninas organizadas pelos moradores. “A gente levantava barracas, tinha conjunto musical, todo mundo participava. Era uma delícia. Foi o lugar que mais marcou a minha vida.” As lembranças seguem pelas paisagens da cidade. “Quando subi o Corcovado fiquei emocionada. Que coisa maravilhosa aquela vista! E as praias são as coisas mais lindas que já vi. Na minha época não tinha tanto prédio, parecia tudo mais mágico. A Quinta da Boa Vista, o Jardim Botânico também são lugares que eu amo e indico para visitas. Eu levava meus filhos, eram passeios inesquecíveis”, conta Nair, revivendo sentimentos.

De Portugal à Favela do Esqueleto

Para Joaquim Martins, 88 anos, o Rio de Janeiro é o local onde ele e sua família prosperaram. Português, chegou ainda jovem, aos 17 anos, para morar com um tio na então Favela do Esqueleto. A comunidade existiu até o início da década de 1960, no local onde hoje se encontra a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no bairro do Maracanã, na zona Norte do Rio. “Era tudo muito simples. A gente morava na favela e eu trabalhava ora no botequim do meu tio, na Rua Dias da Cruz, número 100 (Méier), ora na feira com barraca de bananas. Nossa vida era simples, mas feliz”, Joaquim fala com carinho da trajetória construída na cidade junto com seus familiares e se orgulha de vivenciar as belas paisagens diariamente. “É como diz a música: o Rio continua lindo. Eu aprecio todas as coisas, as belezas do Rio. Nenhuma cidade do Brasil tem o que o Rio tem: Pão de Açúcar, Corcovado, o próprio Maracanã, só o Rio mesmo!” Para Ana Julia Marinho, esses relatos reforçam como o vínculo com o território ajuda a sustentar identidade ao longo do envelhecimento. “Relembrar experiências traz o senso de quem a pessoa foi e bons sentimentos. Quando estimulamos essas memórias, fortalecemos autoestima e reduzimos sintomas depressivos. Não é só lembrar, é reconectar a pessoa com sua própria história.”

Memória como cuidado

Iniciativas como essa mostram que o cuidado vai além do acompanhamento clínico. Estimular narrativas pessoais, celebrar datas significativas e valorizar trajetórias individuais tornam-se estratégias terapêuticas. “No aniversário do Rio, celebramos também as histórias que construíram essa cidade. Cada residente aqui é parte viva dessa memória coletiva”, afirma a gerontóloga. Recordar ativamente experiências pessoais, especialmente positivas e com significado afetivo, pode ser uma estratégia eficaz para apoiar a saúde psicológica em idosos. Ao estimular a memória autobiográfica, há uma conexão mais forte com a própria identidade, com o sentimento de continuidade da vida e com laços sociais, o que contribui para reduzir aspectos como solidão e tristeza, fatores que podem estar relacionados à depressão nessa fase da vida.   Quem assina este texto: Andressa Marques – Jornalista