Incontinência urinária: pouco barulho por muito!

Incontinência urinária: pouco barulho por muito!

Não é raro que algumas condições de saúde comuns na população idosa, sejam encaradas como dissabores da velhice. Uma delas é a incontinência urinária.

Podem acontecer em casos de demência como em um jogo de sombras. A família e o paciente se esquivam de revelar a imagem real da situação, talvez por preferirem atribuir as evidentes alterações cognitivas à idade avançada ou a um grau de dependência funcional desproporcional ao estado clínico.

Ao perguntarmos o motivo da necessidade de auxílio, a resposta é um singelo:

– Mas também, nessa idade, o senhor queria que ele fosse capaz de tudo?!

Infelizmente muitos profissionais de saúde evitam um assunto “desconfortável” e não querem abordar perdendo oportunidades de diagnóstico e tratamento.

Incontinência Urinária: uma “Síndrome geriátrica’

A perda involuntária de urina é um exemplo dessas condições que chamamos de síndrome geriátrica. A incontinência urinária frequentemente não é relatada pelo paciente, seja por constrangimento, desesperança em obter alívio ou simples resignação.

É uma condição bastante comum (acomete cerca de um terço dos idosos). Pessoas acamadas, internados em hospitais ou instituições de longa permanência apresentam índices mais altos.

Mulheres sofrem mais que homens, já que têm a uretra mais curta, facilitando perdas associadas a esforços (como tossir, agachar-se, espirrar, etc… mesmo as mais jovens.

Nos homens a obstrução da via urinária pelo aumento da próstata, fato comum com o avançar da idade, pode resultar em incontinência.

Em ambos os sexos o envelhecimento é, de fato, um grande fator de risco para a incontinência urinária: a incidência aumenta de modo diretamente proporcional à idade.

A intensidade dos sintomas (o quanto a incontinência perturba seu portador) aumenta com o envelhecimento. A menor capacidade da bexiga em armazenar a urina sem disparar o desejo da micção pode levar a um desejo intenso e incontrolável de urinar – a urgeincontinência.

Mecanismos causadores

  • Redução da capacidade de contração do esfíncter da uretra
  • Menor capacidade de armazenamento da bexiga
  • Disparos involuntários da musculatura da bexiga
  • Obstrução por crescimento prostático – incontinência por transbordamento
  • Doenças da bexiga – cálculos, tumores, infecção urinária
  • Perda funcional e cognitiva – dificuldade de locomoção, pessoas acamadas, depressão
  • Uso de medicamentos – diuréticos, alguns antidiabéticos, entre outros
  • Constipação intestinal

Consequências indesejáveis

Embora tão frequentemente negligenciada, a incontinência urinária traz consequências bastante indesejáveis, como queda na autoestima, constrangimento e retração social até complicações mais objetivas, como infecções, lesões de pele e maior risco de quedas.

A incontinência urinária representa uma das principais causas de institucionalização de idosos e uma das principais fontes de gastos com sua saúde, dada sua alta prevalência e repercussões.

O melhor caminho

Uma vez reconhecida a incontinência o primeiro passo para melhorar a situação é o diagnóstico correto. A avaliação completa dos fatores listados acima é fundamental.

Estabelecido o diagnóstico, o próximo passo é a correção de fatores reversíveis. Medicamentos de uso frequente podem interferir com a micção, por exemplo.

Tratamentos não farmacológicos são de grande valor para a maioria dos casos. Controlar a ingestão excessiva de líquidos evitar o uso de estimulantes da contração da bexiga, como álcool, chá e café, facilitar o acesso à toalete e estabelecer horários para as micções são de grande valor.

O chamado diário miccional deve registrar a cada hora de tudo o que é ingerido, as micções, o volume urinado, e os episódios de perdas por três dias consecutivos. Pode ser útil para a definição de estratégias de micção programada, para pacientes mais dependentes, ou reeducação da bexiga, para os mais cooperativos.

Diversas técnicas de fisioterapia para treinamento da musculatura do assoalho pélvico, têm grande valor no controle do quadro. A fisioterapia urológica pode ser realizada com ou sem aparelhos e instrumentos e será assunto de outra publicação

Ainda existe o tratamento cirúrgico para casos selecionados. As técnicas pouco ou minimamente invasivas são as preferidas para a população idosa. Também podemos contar com medicamentos específicos capazes de amenizar em grande medida o problema.

A incontinência urinária é um transtorno comum em idosos, mas frequentemente não relatado pelos pacientes e nem investigado por profissionais.

O estigma associado a essa questão compromete diversas oportunidades de tratamento. Uma abordagem direta e honesta, tanto da parte do profissional quanto daquele que vive o problema é a melhor opção para o sucesso da qualidade de vida do paciente e seus familiares.

Todo esquecimento é igualmente preocupante?

Todo esquecimento é igualmente preocupante?

Uma das queixas mais frequentes que surgem no consultório dos médicos neurologistas e geriatras é o esquecimento. O temor mais comum de quem procura o consultório por esse motivo é estar com doença de Alzheimer.

Será que é comum ficarmos mais esquecidos conforme envelhecemos?

Não é necessário ter passado dos cinquenta ou sessenta anos para evocar facilmente aquela típica situação de querer lembrar o nome de um artista de cinema, atriz de novela ou, até mesmo, de determinada rua e, não conseguir… No entanto, passados alguns minutos (tá certo, às vezes são muitos minutos…), eis que o nome surge.

A analogia que mais se presta a explicar esses pequenos lapsos de memória, embora seja algo rudimentar, é comparar o nosso cérebro à memória de um computador. Todos nós sabemos que conforme o computador vai sendo usado e seu disco rígido é ocupado por informações que armazenamos, ele vai ficando cada mais lento e a velocidade de processamento de informações diminui.

É comum ouvirmos essas frases:

– ah, mas eu tinha uma memória de elefante

– eu sempre fui reconhecido por ter uma memória prodigiosa

– entre outras frases tão conhecidas.

Imagine a quantidade de situações que já foram vivenciadas por um indivíduo de 60 anos: pessoas que conheceu (e que segue conhecendo, claro), lugares que visitou, ocasiões festivas e outras não tão festivas assim, viagens, empregos, endereços e assim por diante?

Agora, voltamos à comparação com o disco rígido relativamente “vazio” de um jovem de 20 anos: é fácil entender a diferença no desempenho da memória entre os dois.

Ganhamos, por um lado, enriquecendo o cérebro com as nossas experiências de vida, mas pagamos um preço por isso: a memória um pouco mais lenta.

No entanto, de fato, existem  algumas situações que passam do esquecimento por “HD cheio” para um problema mais sério que deverá ser bem esmiuçado.

Qual o limite entre um esquecimento trivial e aquele que preocupa?

Há algumas pistas que são indicativas da necessidade de investigação. Por exemplo, quando os esquecimentos passam a prejudicar ou colocar em risco a pessoa: esquecer o fogão aceso reiteradamente, perder-se em trajeto habitual, tomar o remédio prescrito em dose dobrada ou não tomá-lo.

Outra queixa bastante frequente por parte dos familiares é que o indivíduo se tornou “muito repetitivo” e, aqui está o elemento primordial, não tem crítica de estar assim: ele repete várias vezes a mesma coisa (uma história ou uma pergunta) mas tem a convicção de que sempre é a primeira vez.

Mas nem tudo são más notícias!

Estima-se que até 30% de todas as queixas de dificuldade com a memória sejam provocadas por situações potencialmente reversíveis, tais como distúrbios de humor (a depressão, por exemplo), disfunção da tireoide, déficits vitamínicos específicos e efeito colateral de medicamentos, para citar apenas algumas.

E, para aqueles que querem minimizar o risco de problemas de memória, a melhor atitude é ter um estilo de vida saudável e tratar daquelas doenças que podem colocar o cérebro em risco:

7 sugestões que você pode adotar no seu dia a dia:

      1. Controle a pressão alta (hipertensão arterial)
      2. Acompanhe os níveis de açúcar e colesterol no sangue
      3. Não fume
      4. Não abuse do álcool
      5. Mantenha o peso adequado
      6. faça atividade física regularmente
      7. mantenha-se cognitivamente ativo por meio da leitura, das amizades e da família

 

E a dica mais valiosa! Diante de sinais de alerta, o melhor a fazer é procurar um especialista.

Envelhecer. Questão de tempo e subjetividade

Envelhecer. Questão de tempo e subjetividade

Envelhecer, não estamos imunes ao tempo; ele afeta a todos, sem exceção. Será que estamos preparados para o envelhecimento?

Considerado um processo complexo e esperado, envelhecer é percebida e sentida de diferentes maneiras, levando em conta, além do contexto de vida, a diversidade de experiências individuais e sociais:

Quem, ao longo da vida, em algum momento, já pensou na velhice como um momento de descanso, férias, viagens, finais de semana com a casa cheia e mesa farta regada por risadas e muito amor?

Muitos imaginam que o envelhecer seria a melhor fase perto da família repleta de muito carinho, cuidado e proteção.

Geralmente, a família assume a responsabilidade de cuidar e dar apoio ao idoso. Algumas vezes, essa troca de papéis pode destruir a imagem idealizada que frequentemente os filhos mantiveram dos pais durante toda vida: a de que eles seriam eternamente cuidados por seus progenitores.

No entanto, uma espécie de “troca de papéis” pode ocorrer e, nem sempre, os filhos estão preparados para a missão de ser os cuidadores. Quando ocorrem falhas nesse cuidado dos filhos, podem surgir prejuízos e lacunas emocionais nos pais diante da ausência desse suporte necessário e esperado.

Velhice afetada

Muitos aspectos afetam a velhice e fazem com que o idoso não se sinta incluído. Aos poucos ele vê seu espaço social diminuir sem poder trabalhar, sem condição física para passear e, quase sempre, encarando momentos de solidão e abandono.

Para Goldfarb e Lopes (2009 p.12): “Os velhos são empurrados para as bordas da estrutura social, à perda de todo poder, até sobre si mesmos”.

Dessa forma, o idoso vai se acostumando com sua condição e, aos poucos, perdendo o prazer de viver. Gera uma fragilidade que necessita ser acompanhada, entendida e, principalmente, antecipada para que ele possa continuar tomando decisões sobre sua vida de forma independente e autônoma.

Quem nunca ouviu de um idoso: “o tempo de antigamente era melhor”!

 Diante de uma sociedade que valoriza os paradigmas da juventude e tem uma relação complicada com a maturidade – a velhice – não é difícil entender o fundo emocional dessa frase.

Antigamente o idoso era visto como sábio, procurado para dar conselhos, uma figura que sempre inspirou respeito e admiração. Atualmente a velhice é vista como improdutiva e decadente.

Será mesmo?

É essencial desmontar essa série de estereótipos que encobrem a vida das pessoas que tem sonhos, desejos, carências afetivas e sexuais. É fundamental incentivar o idoso a ressignificar os sentimentos negativos para que perceba ser possível florescer mesmo nessa fase; olhar para o futuro com otimismo e vislumbrar o que fazer com os vinte, trinta, quarenta anos, em média, que restam a serem vividos.

É necessário considerar a velhice em sua pluralidade de experiências individuais e sociais, pois muitos idosos descobrem que sua sobrevida depende de novas tarefas. Já, outros, desfazem os laços de seus contratos passados – e ainda há os que tentam, com sucesso, renegociá-los.

Referências pesquisadas:

GOLDFARB, D. C., Lopes R. G. C.. (2009). Definindo a psicogerontologia. In Psicogerontologia Fundamentos e Práticas. Curitiba: Juruá editora.