A pele muda com o passar do tempo e cuidados especiais devem ser tomados para cada idade.
Dessa forma, a epiderme do idoso sofre alterações que acompanham o envelhecimento biológico. Entretanto, alguns cuidados simples podem melhorar e retardar o desgaste cutâneo.
Aqui vou orientá-lo desde a forma correta de tomar banho até cuidados avançados para obter o rejuvenescimento cutâneo e a aparência mais jovem.
Hora do banho
Nada de tomar banho esfregando o corpo com buchas, esponjas ou escovão. A pele idosa quase não tem mais camada lipídica (gordura que as células do epitélio produzem e que formam um filme protetor contra o ressecamento e enrugamento da pele) e esfregar só vai piorar o quadro de ressecamento e envelhecer mais ainda sua pele.
Evite banhos muitos quentes, pois, a alta temperatura confere mais ressecamento e flacidez à pele. Portanto, a face só deve ser lavada com água fria. Nada de lavar o rosto no chuveiro!
Utilize um sabonete hidratante e aplique somente nas áreas que sujam mais, ou seja, no pescoço, debaixo das mamas, no caso das senhoras, nos genitais e nos pés. No resto do corpo, como braços, tronco e pernas, dê preferência aos sabonetes com óleos. Existem vários no mercado.
Tome banho à tarde ou à noite, pois, é melhor do que tomar banho pela manhã, pois, como vivemos em um país tropical e nos meses de calor produzimos mais suor, não é bom para a pele dormir com o corpo úmido pois facilita a instalação de germes como fungos e bactérias.
Os banhos devem ser rápidos. De preferência de 5 e no máximo 10 minutos.
Idosos costumam gostar de banhos bem quentes, mas a temperatura alta é péssima para a pele.
Enxugue o corpo com uma toalha bem felpuda sem esfregar. Seque bem as áreas de dobras como abaixo dos seios, virilhas e dedos dos pés. Você pode utilizar também um secador na temperatura morna, caso tenha dificuldade para alcançar estes lugares, evitando assim quadros de assaduras por umidade excessiva.
Após secar o corpo, aplique um bom hidratante, mas sempre sem perfume. Hidratantes com cheiro ou cor podem provocar processos alérgicos e têm menor capacidade de hidratar.
Quanto mais seca a pele for mais grosso deve ser o hidratante para evitar a evaporação da água do epitélio.
Se a pele da face estiver muito seca procure um hidratante na forma de creme.
Uma consulta ao dermatologista poderá dar as melhores orientações caso a caso.
E, por fim, faça atividade física, alimentação balanceada e tome bastante água que vai deixar sua pele muito mais jovem e bonita.
Meu médico auscultou um Sopro no meu coração… É grave?
Um achado frequente na avaliação física de idosos que merece seguimento.
O coração é um órgão incansável. É a bomba responsável por toda a circulação sanguínea e trabalha ininterruptamente desde a vida embrionária até a morte.
Para isto, sua arquiteturaé composta por quatro câmaras, com estruturas que permitem que sua performance seja máxima e assegurem o fluxo sanguíneo sempre na direção adequada. Estas são membranas delicadas chamadas válvulas cardíacas.
Temos quatro delas no coração:
Tricúspide (entre o átrio direito e o ventrículo direito)
Pulmonar (entre o ventrículo direito e a artéria pulmonar)
Mitral (entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo)
Aórtica (entre o ventrículo esquerdo e a artéria aorta)
Veja o esquema
O sangue sem oxigênio chega ao coração pelo átrio direito, passa ao ventrículo direito, de onde é bombeado através da artéria pulmonar para os pulmões a fim de ser oxigenado. De lá volta ao coração chegando pelo átrio esquerdo, escoa ao ventrículo esquerdo que é o responsável pelo seu bombeamento para o corpo pela aorta.
Veja o vídeo
Estas válvulas se abrem e se fecham durante os batimentos cardíacos, e permitem que o sangue seja ejetado para os pulmões e para o corpo, sem oferecer resistência ou permitir que o sangue reflua para o coração. Quando o funcionamento destas válvulas sofre alteração, surge um turbilhonamento do sangue, causando um som – o sopro cardíaco.
Intuitivamente podemos entender que quanto maior é a alteração da válvula tanto mais intenso é o sopro. Ele acontece porque a membrana deficiente permite o refluxo de sangue (insuficiência) ou não se abre adequadamente, criando uma resistência ao fluxo (estenose).
A maior parte das alterações das válvulas cardíacas que acontecem com o passar do tempo tem causa degenerativa, ou seja, o seu movimento contínuo as vai desgastando e lesionando.
Doenças congênitas, infecciosas ou reumatológicas podem acelerar a degeneração. As situações mais comuns são a insuficiência da válvula mitral e a estenose da aórtica.Tais doenças das válvulas devem ser acompanhadas porque com seu agravamento pode ocorrer o surgimento de insuficiência cardíaca, situação em que a função de bombeamento sanguíneo pelo coração fica comprometida, causando sintomas como falta de ar, tonturas, arritmias ou até mesmo dor no peito.
O tratamento definitivo dessas situações costuma ser cirúrgico (plástica da válvula doente ou troca por prótese) ou, mais recentemente, intervencionista (através de procedimento por cateterismo cardíaco). O momento ideal de realizar algum destes tratamentos invasivos deve ser muito bem indicado, para que não seja feita uma intervenção precoce a ponto de ser considerada desnecessária e nem tardia, momento em que o coração já tenha sofrido alterações irreversíveis, não sendo mais possível sua recuperação.
Desta forma, caso seja descoberto um sopro no coração é essencial o acompanhamento médico para que o diagnóstico precoce e o tratamento adequado possam preservar qualidade de vida.
Na medida em que a população envelhece e a expectativa de vida acena com metas cada vez mais ambiciosas, observamos um aumento progressivo dos diagnósticos de câncer. O racional é que uma célula mais velha esteja sob maior risco de mutações e algumas formas que nosso corpo tem para neutralizar essas mutações vão ficando menos eficientes.
A idade, independente de outros fatores, aumenta a incidência de câncer. Na ginecologia não é diferente. Durante o mês de outubro nossas atenções se voltaram para o câncer de mama e, caso você não tenha visto ainda, aqui no Portal da Trevoo existem artigos sobre esse tema tão importante. Hoje vou abordar o câncer ginecológico, que responde por mais de 40% dos casos de câncer nas mulheres, sendo os mais comuns os de colo uterino, ovários e corpo uterino ou endométrio.
Existem algumas particularidades na mulher mais idosa que interferem no prognóstico, incluindo o diagnóstico tardio, já que muitas vezes a mulher deixa de ir ao ginecologista após a menopausa ou por não ter atividade sexual ou por achar, erroneamente, que por estar mais idosa “não precisa” mais ir ao ginecologista.
Para ilustrar, seguem duas tabelas do INCA, 2019, sobre incidência e mortalidade por câncer em mulheres no Brasil.
TABELAS INCA:
1 INCIDENCIA DE CÂNCER EM MULHERES
Localização Primária
Casos Novos
%
Mama feminina
66.280
29,7
Cólon e Reto
20.470
9,2
Colo do útero
16.710
7,5
Traqueia, Brônquio e Pulmão
12.440
5,6
Glândula Tireoide
11.950
5,4
Estômago
7.870
3,5
Ovário
6.650
3,0
Corpo do útero
6.540
2,9
Linfoma não-Hodgkin
5.450
2,4
Sistema Nervoso Central
5.230
2,3
Todas as Neoplasias, exceto pele não melanoma
223.110
100,0
Todas as Neoplasias
316.280
2 MORTALIDADE POR CÂNCER EM MULHERES
Localização Primária
Óbitos
%
Mama
18.068
16,4
Traqueia, Brônquios e Pulmões
12.621
11,4
Cólon e Reto
10.385
9,4
Colo do útero
6.596
6,0
Pâncreas
5.893
5,3
Estômago
5.475
5,0
Sistema Nervoso Central
4.663
4,2
Fígado e Vias biliares intrahepáticas
4.584
4,2
Ovário
4.123
3,7
Leucemias
3.356
3,0
Todas neoplasias
110.344
100,0
O câncer de mama tende a ser menos agressivo com a idade, apresenta crescimento mais lento e, em regra, demanda tratamentos menos invasivos. Não existe mudança com relação à cirurgia, salvo em mulheres muito idosas com comorbidades que contraindiquem quimioterapia ou mesmo a radioterapia. Nesses casos, há uma tendência maior à realização de mastectomia ao invés de cirurgia conservadora. Nesse grupo é mais comum a hormonioterapia do que a quimioterapia como adjuvante.
O câncer de endométrio, que é a camada interna do útero, aparece geralmente após os 60 anos. O sintoma mais comum é sangramento vaginal na ausência de reposição hormonal e esse é um alerta muito válido.
Toda mulher que apresenta sangramento na pós-menopausa deve ser submetida a uma avaliação cuidadosa através de exame ginecológico e ultrassonográfico, com a medida da espessura e das características desse endométrio. Importante frisar que o câncer não é a única causa desse tipo de sangramento, mas obrigatoriamente, deve ser descartado. Os pólipos, a própria fragilidade desse tecido provocada pela falta de hormônio e as hiperplasias (espessamentos) do endométrio são causas mais comuns e benignas de sangramento.
O diagnóstico de certeza depende da retirada de material da cavidade uterina de preferência através da histeroscopia ou, quando esse método não se encontra disponível, através de curetagem.
O tratamento é cirúrgico por excelência e tanto as cirurgias por videolaparoscopia quanto as robóticas são alternativas que diminuem o tempo de cirurgia e o pós- operatório, e tendem a ser muito melhores se comparadas às cirurgias convencionais.
O câncer de ovário persiste como um grande desafio para nós, médicos, devido à dificuldade de se avaliar os ovários, o que leva a um diagnóstico em fases avançadas da doença com piora no prognóstico e qualidade de vida. Sua incidência aumenta a partir dos 65 anos. Os ovários são órgãos pequenos que diminuem ainda mais na menopausa e podem não ser vistos em uma USG de rotina.
Em fases iniciais não apresenta sintomas e geralmente é achado em ultrassonografia de rotina. Tardiamente, pode haver dor e aumento do volume do abdômen, emagrecimento e queda do estado geral. 75% dos casos são diagnosticados em fase avançada, o que explica ser o câncer de ovário o que apresenta maior mortalidade dentre os cânceres em mulheres. Portanto não deixe de fazer o USG endovaginal ou de pelve anualmente, principalmente se houver casos de câncer de ovário e/ou mamas na sua família. A base do tratamento é a cirurgia, cuja extensão depende da fase da doença e geralmente da quimioterapia complementar. Metade das pacientes com câncer de ovário avançado morre em até cinco anos. Em compensação, quando a doença ainda está restrita ao órgão, 90% dessas pacientes viverão mais que cinco anos.
Os cânceres de vulva e o de vagina são relativamente raros e acometem, principalmente, mulheres acima de 65 anos. O de vulva, que é a genitália externa da mulher, responde por 5% dos cânceres ginecológicos e o de vagina tem incidência ainda menor.
Raramente o câncer de vagina é primário, geralmente ocorre por extensão ou metástase de outros tumores ginecológicos. O tratamento é cirúrgico e resulta, muitas vezes, em mutilações importantes, com impacto direto na qualidade de vida dessas mulheres, inclusive na vida sexual.
A taxa de sobrevida em cinco anos do câncer de vulva varia de 16%, se existe disseminação para outros órgãos, até 86% nos tumores localizados. Com relação ao câncer de vagina, mais de 90% de sobrevida em cinco anos nos casos iniciais caindo para 30%, em média, nos casos em que existe doença a distância.
Vale lembrar que a vacina contra o HPV, que também faz parte do calendário de vacinação no nosso país e é oferecida pelo SUS, vem diminuindo a incidência das lesões precursoras do câncer genital, tanto em homens quanto em mulheres, o que significa que menos pessoas serão vítimas dessas neoplasias.
Já o câncer de colo uterino apresenta risco menor à medida que a mulher envelhece, mas isso não significa que podemos deixar de fazer o Papanicolau. Aliás, a ideia de ir ao ginecologista anualmente para fazer o exame de prevenção é uma forma de garantirmos que os outros exames necessários a cada fase da vida serão realizados também. É o terceiro tumor mais frequente em mulheres, atrás apenas do de mama e do colorretal, e a quarta causa de morte por câncer na população feminina no Brasil, segundo dados do INCA. Ou seja, é muito presente em nossa realidade de país eternamente em desenvolvimento. A incidência do câncer de colo é nitidamente menor em países desenvolvidos.
A associação com infecção pelo HPV é o principal fator de risco, além de baixas condições de higiene, múltiplos parceiros, início precoce de vida sexual, tabagismo, outras doenças sexualmente transmissíveis e imunossupressao.
Os sintomas mais comuns são corrimento vaginal com odor desagradável e sangramento vaginal à atividade sexual. Com a evolução da doença pode aparecer dor pélvica intensa, alterações urinárias, intestinais, febre, emagrecimento. Não espere isso acontecer com você!
A faixa de idade mais acometida é entre 35 e 45 anos, mas mais de 20% dos casos ocorrem em mulheres com mais de 65 anos. A sobrevida média em cinco anos é de 66%, mas é importante frisar que, nos casos iniciais, passa de 90%.
O câncer de colo é um dos poucos que podem, efetivamente, ser prevenidos, já que na maioria das vezes só conseguimos diagnóstico precoce. O Papanicolau, chamado de exame preventivo, deve ser realizado anualmente por todas as mulheres que já tiveram atividade sexual. É um exame simples, rotineiro, indolor, de baixo custo, que consegue identificar células doentes que podem evoluir para o câncer se não houver tratamento adequado, ou seja, o Papanicolau diagnostica o pré-câncer de colo. Digo para minhas pacientes que, havendo como prevenir, o câncer de colo só acontece em quem QUER. Cuide-se! Faça seu preventivo regularmente!
O tratamento varia de procedimentos simples, como a retirada do colo uterino apenas, até cirurgias muito complexas. Em algumas situações a radioterapia é necessária, o que acarreta, muitas vezes, consequências danosas para a paciente, devido à proximidade da bexiga e do reto. Quimioterapia, imunoterapia e terapia alvo, muitas vezes são necessárias e dadas inúmeras possibilidades terapêuticas e às particularidades de cada paciente, o ideal é que uma equipe multiprofissional conduza o tratamento.
Enfim, espero ter contribuído com informações importantes e, mais que isso, espero ter alertado sobre os cânceres ginecológicos que são uma triste realidade em nosso meio e merecem toda a atenção.
Já não é novidade que a população de nosso país está envelhecendo e cada vez nós vivemos mais e melhor. Mas quando pensamos em HIV ou AIDS, por que ainda o jovem é aquele que primeiro vem a nossa cabeça?
O HIV – vírus causador da AIDS – foi descoberto em 1981, no auge da geração dos Baby Boomers e, primeiramente descrito como uma epidemia dos jovens e homossexuais. Mas não passou muito tempo para observarmos claramente que se tratava de uma doença potencialmente transmissível para todos aqueles que têm uma vida sexual ativa e sem proteção.
Quem convivia com o HIV até meados da década de 90, sofria com uma doença fatal, por predispor em pouco tempo a muitas infecções do organismo, ditas oportunistas, como, por exemplo, pneumonia ou meningite por fungos e/ou diversos outros microrganismos.
Após muito debruçarmos sobre a ciência, surgiu o tão esperado tratamento. Chamado no meio médico de TARV (o que antigamente era o tal “coquetel”), a terapia antirretroviral levou a infecção pelo HIV passar de uma doença fatal, para uma doença crônica. Sim, por enquanto incurável, mas com cada vez mais evidências que demonstram uma longevidade muito semelhante a quem não tem HIV.
Fica claro entender então que uma geração inteira vem envelhecendo com HIV e em países como Estados Unidos, entre todas as pessoas com HIV, a população acima dos 50 anos já passa da metade!
Falar sobre os grupos mais vulneráveis ao HIV não é simples e aqueles com mais de 50 anos já constituem uma parcela considerada vulnerável. Alguns motivos explicam isso.
Existem ainda muitas barreiras a serem enfrentadas como por exemplo, um imaginário que o idoso não faz sexo. O etarismo, ou seja, o preconceito contra pessoas com idade mais avançada mostra-se presente coletivamente, quando se pensa que o idoso não faz sexo ou ainda quando nos deparamos com a vergonha de falar sobre o assunto, medo de ser julgado “promíscuo” etc. Como se ficar mais velho fosse um empecilho para algo tão saudável como o sexo.
Alguns podem ainda esquecer-se do preservativo e seu uso correto, seja por crenças errôneas de que a proteção gira em torno da gravidez (dessa forma exclusiva de mulheres mais jovens) ou mesmo por dificuldades enfrentadas pelas pacientes com idade mais avançada na lubrificação da vagina (algo muito comum), o que gera um desconforto para o uso do preservativo.
Nas consultas médicas ou de outros profissionais de saúde, o tema sexualidade deve ser abordado, partindo do próprio profissional ou de alguma pergunta do paciente. É fundamental para uma equipe de saúde averiguar riscos quanto às práticas sexuais.
Os idosos também devem ser considerados para testes diagnósticos de infecções sexualmente transmissíveis, algo que podemos nos esquecer de oferecer e é muito importante uma vez que quanto mais tarde diagnosticamos o HIV no organismo, mais propensos àquelas infecções oportunistas.
Com todo o exposto e para evidenciar algumas dúvidas cabíveis, listo as perguntas a seguir:
Existe alguma dúvida sobre seu funcionamento sexual? Notou algum problema ou mudança na sua capacidade de desfrutar o sexo, como dor ou outros sintomas?
Você e seu parceiro (a) usam o preservativo regularmente?
Você conhece os outros fatores de risco para o HIV, como transfusões de sangue (no passado), ou uso de drogas intravenosas?
Você conhece outras infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis, gonorreia, tricomoníase entre outras? Já sabe se teve alguma delas?
O que se pode fazer para proteger os parceiros de contrair o HIV?
Você já ouviu falar do PrEP – medicamento oral antiviral usado preventivamente por diversas pessoas sexualmente ativas e que se encaixam em alguns perfis de risco?
Podemos reduzir de forma consistente a transmissão do HIV em populações mais vulneráveis como o da geração esquecida, entendendo suas particularidades, explorando o tema com mais naturalidade em consultas e também políticas públicas, assumindo os riscos reais dos mais idosos ao enfrentarmos o etarismo em diversos ambientes e práticas.
Quem perdeu todos os dentes precisa de higiene bucal?
Sim. A boca é composta de lábios, língua (superfície e dorso), céu da boca, bochechas do lado de dentro e dentes.
Como escovar uma dentadura?
Pode fazer a higiene com uma escova de dente, macia e sabão neutro, como os de bebê. E também pode ser com detergente neutro. Apesar de intuitivo, as pastas de dentes podem deixar a resina das próteses mais porosas.
Tirar as dentaduras para dormir a noite por quê?
Sim. A gente também tira os sapatos para dormir, por mais que sejam confortáveis como os chinelinhos de pano. No caso das próteses móveis ou dentaduras, é indicada a remoção para evitar proliferação de microrganismos, principalmente fungos. Além disso, também para evitar compressão desnecessária dos tecidos da boca em quem tem bruxismo ou apertamento, por exemplo. Lave-as, e coloque em um recipiente com água filtrada que deve ser trocada na noite seguinte.
Perder os dentes faz parte do envelhecimento?
Não. Culturalmente nos acostumamos com a ideia de que os dentes estragam ao longo da vida e devem ser removidos. É um engano. O certo é aprender a ter hábitos diários simples como escovar os dentes, passar o fio dental e administrar o consumo de doces.
Quem usa sonda e não come mais pela boca precisa de higiene bucal?
Sim. Vou também responder com uma pergunta: quem não anda mais precisa lavar os pés ou tomar banho todos os dias?
Os microrganismos da boca se proliferam mesmo sem comermos. Além disso, o comum é que as secreções do trato respiratório voltem e façam crostas na cavidade bucal. A higiene colabora também para a prevenção de pneumonia por broncoaspiração de conteúdo contaminado.
Mas minha paciente morde meu dedo quando vou escovar seus dentes, como é que vou fazer?
Há dispositivos prontos no mercado, que são os mordedores de borracha. E também podemos fazer “bonecas”, que são palitos de madeira empilhados e com a ponta envolta com gaze e esparadrapo. Eles dão apoio para manter o paciente com a boca aberta para a realização da higiene.
Há também dispositivos facilitadores como escovas de dente elétricas, fio dental forquilha e escovas interdentais.
Cuidar do outro é inerente de profissionais que escolheram dedicar suas vidas a esses pacientes. Dar banho, administrar medicamentos, virar na cama para prevenir escaras, levar para tomar sol, cortar as unhas e acompanhar o dia todo são atividades da rotina dos cuidadores. As tarefas bucais são escovar os dentes, limpar a língua, as bochechas pelo lado de dentro, o céu da boca e manter os lábios hidratados.
E a partir disso faço-lhes uma provocação odontológica: “como é que vocês cuidam da saúde bucal de vocês? Escovam seus dentes, usam fio dental, já perderam dentes? Usam próteses?“
Essas reflexões têm o objetivo de nos fazer lembrar a importância de dar a nós mesmos o que damos ao outro, em todos os aspectos.
E assim finalizo: “ Eu cuido melhor do outro quando cuido de mim”.
Vamos pensar em dois cenários: João, 69 anos, tinha alguns problemas de saúde, como hipertensão arterial e diabetes, mas não gostava de se cuidar.
Já sua esposa, Maria, de 65 anos, tinha uma excelente saúde, fazia atividade física diária, dieta balanceada e tomava vitaminas para ser saudável.
João, certo dia, tem dor no peito, é levado ao hospital onde é diagnosticado um infarto. Recebe tratamento e sai com a orientação de tomar aspirina continuamente, afinal ela é uma droga poderosa para prevenção de novos eventos cardíacos. Maria, interessada em conservar sua boa saúde, começa a tomar aspirina também, a dose é infantil e não vai fazer mal…
O tratamento de doenças cardiovasculares (DCV), principalmente do infarto do miocárdio (IM) e mesmo dos acidentes vasculares cerebrais isquêmicos (AVCi), vem se beneficiando de muitos conhecimentos acumulados, com importantes repercussões na redução da sua mortalidade.
Uma das maiores contribuições para este fato foi a indubitável ação da aspirina, medicação conhecida há tantas décadas como responsável pela melhora nas taxas de sobrevida de pacientes que sofriam de síndromes coronárias agudas (que incluem o IM e a angina).
Desde os anos 1980, diversos estudos vêm corroborando sua importância no tratamento destas doenças tão graves. Através de sua ação na redução da capacidade de formação de coágulos sobre as placas de ateroma (gordura), que naturalmente tendem a se formar nas artérias do coração e do cérebro, a aspirina (ou ácido acetilsalicílico – AAS) reduz a possibilidade de entupimento dos vasos, que suprem estes órgãos de nutrientes e oxigênio. Assim, uma intervenção medicamentosa aparentemente tão simples pode reduzir em até 30% a mortalidade destas emergências clínicas.
O uso da aspirina se tornou, desde então, um dos pilares no tratamento das pessoas que sofriam com os males das DCV. Talvez por ser aparentemente tão inócua, ainda mais na dose usualmente recomendada para a proteção nessas situações, (apenas 81 a 100mg são suficientes), o uso indiscriminado deste medicamento passou a ser uma realidade. Afinal, doses que usamos para crianças não poderiam trazer quaisquer males para usuários adultos, certo?
Errado! Desde 2019, a American Heart Association (AHA), entidade que desenvolve guias para tratamento das doenças cardiovasculares e cerebrovasculares nos Estados Unidos da América, alerta para possíveis complicações do uso inadequado da aspirina. Com a tendência do seu emprego cada vez mais frequente e sem uma indicação precisa, foi percebida que a ocorrência de fenômenos hemorrágicos, principalmente gastrointestinais, superava as possíveis vantagens naquelas pessoas que não tinham justificativa clínica.
Acontece que, apesar de ser utilizada em doses baixas, a aspirina é um potente irritante da mucosa gástrica, principalmente quando exposta continuamente a este agressor. Gastrites, úlceras e hemorragias são mais frequentes em usuários crônicos deste medicamento.
Outra preocupação, comumente deixada em segundo plano, é a possibilidade de alergias ao ácido acetilsalicílico (AAS) e outros efeitos, como descompensação de asma brônquica. Pacientes com distúrbios de coagulação também são considerados de risco para aumento de sangramento com o uso da aspirina. Procedimentos diagnósticos ou terapêuticos podem ser comprometidos pelo uso contínuo do AAS.
Afinal, para quem o uso contínuo da aspirina tem um efeito benéfico, que certamente supere seus riscos?
Infelizmente não é para todos. Listaremos algumas situações em que ela deve ser considerada de forma inquestionável, desde que não haja contraindicação:
– pessoas que já tenham apresentado IM ou AVC isquêmico;
– pacientes que tenham implantes intravasculares, como stents coronários ou em vasos carotídeos, assim como algumas próteses cardíacas.
Ou seja, como prevenção secundária, situações nas quais a pessoa já mostrou uma suscetibilidade aumentada para DCV sempre devemos considerar seu uso, descartadas as situações de risco aumentado.
O uso indiscriminado ocorre principalmente na profilaxia primária, ou seja, naqueles indivíduos que ainda não tiveram IM ou AVC, mas querem prevenir sua ocorrência. Para estas situações devemos ser muito mais cuidadosos.
Segundo a AHA, em seu consenso de 2019, devemos observar alguns critérios para a indicação do uso contínuo de aspirina:
– Homens entre 45 e 79 anos de idade quando o risco potencial de DCV importante supera o risco de sangramento ou outras complicações;
– Mulheres entre 55 e 79 anos de idade quando o risco potencial de DCV importante supera o risco de sangramento ou outras complicações;
– pessoas diabéticas acima de 40 anos de idade com outros fatores de risco para DCV.
O que está ocorrendo neste momento é a reavaliação destas indicações por uma Força Tarefa de cientistas e médicos, que destacam maior preocupação com potenciais complicações do tratamento. É importante ressaltar que seu posicionamento é de combater, baseados nas evidências científicas acumuladas, apenas o uso indiscriminado deste potente agente anticoagulante e não condenar o medicamento para todos.
Voltando aos cenários do início, Maria teve um quadro de intensa dor gástrica após dois meses do infarto de João. Precisou fazer endoscopia digestiva alta que mostrou uma úlcera no duodeno, necessitou de tratamento de alguns meses e hoje tem intolerância a diversos alimentos e medicamentos
A decisão sobre o uso ou não de aspirina como medicamento de prevenção não é brincadeira. Não deve ser discutida na roda de amigos ou com pessoas que não são habilitadas para entender os riscos e benefícios de seu uso. Ela deve ser individualizada, conversada com seu médico, que apontará não só as vantagens como também os sinais de alerta aos quais devemos estar atentos para uma intervenção caso algo saia do esperado. Além disso, sempre deve ser ressaltado que a adoção de hábitos saudáveis como dieta adequada, atividade física regular e boa qualidade de sono são tão ou mais eficazes na prevenção de DCV que qualquer medicamento. Pense nisso!