Enriquecimento do cotidiano de idosos

Enriquecimento do cotidiano de idosos

Falar de envelhecimento ativo e saudável já faz parte dos temas tão abordados e necessários sobre saúde. Afinal com o advento da longevidade temos a constatação de que esta fase da vida é resultado das escolhas feitas ao longo de todas as fases que a antecederam. Mas nunca é tarde para se pensar em qualidade e propósito de vida, ou seja, no enriquecimento do cotidiano.

Há de se considerar as mudanças biológicas naturais dessa fase para procurar um cotidiano compatível com as possibilidades e potencialidades do idoso.  Assim não fica a marca de perdas e rupturas, mas de reconstrução.

A geração dos cabelos prateados tem buscado sua valorização e participação ativa em diferentes lugares da sociedade. Começando dentro de casa.

Diante de dificuldades e limitações, é comum a abrupta restrição de circulação e participação social, quebra de compromissos, e empobrecimento de repertório sócio-ocupacional o que gera impacto direto em aspectos motores, cognitivos e emocionais.

 

Por isso, é muito importante que pessoas próximas a estes idosos o ajudem a fortalecer sua rede de suporte para enfrentamento destas dificuldades, conciliando estímulos à qualidade e propósito de vida.

 

Pensando nisso, pela prática com pacientes e meus próprios familiares, separei algumas dicas bem coringas:

1) Elabore uma rotina variada: monte uma programação com dias e horários determinados. Organize momentos para acordar, comer e dormir, aproveitando ao máximo a luz natural. Isso ajudará em aspectos cognitivos e metabólicos.

Dentre as atividades que executará, deixe bem marcado o tema de cada dia, por exemplo: leituras de 3a e 5a, artesanato de 2a e 4a, jardinagem de 6a feira, culinária e filmes de finais de semana. Assim, é possível enriquecer os dias, garantindo variedade e desafios.

2) Valorização biográfica: o idoso precisa que seja valorizada sua história de

Vida, com enaltecimento de conquistas, sabedorias e desafios superados. Rever fotos, montar álbuns temáticos com legendas e uma linha do tempo, ser consultado para receitas e orientações, promover a intergeracionalidade etc. são algumas dicas.

3) Desafios. Procure elementos que tragam a oportunidade do idoso sair da zona de conforto, gerar aprendizagem e desafios. Por exemplo, introduzir o uso de tecnologia para se comunicar com a família, jogos e etc.

4) Atribua responsabilidades ao idoso. Torne-o protagonista do seu cotidiano, com a participação nas tomadas de decisões e eleja as tarefas que serão de sua responsabilidade. Mesmo em casos de demência ou algum outro tipo de comprometimento funcional, vale estar atento às possibilidades dele fazer algo que agrega à rotina de todos.

5) Autonomia. Estimule o máximo de autonomia possível. Por exemplo, se gostava de cozinhar e está com alguma limitação física, deixe com ele função de montar o cardápio do dia, ou fazer pequenas tarefas como separar o feijão ou lavar a verdura. Na medida do possível, mesmo que de forma supervisionada ou parcial, deixe o idoso responsável por escovar seus cabelos, escolher a roupa que usará ou manusear os talheres nas refeições. Além de ser um bom exercício de autocuidado é um meio de estimular a motricidade, a cognição, ajudar na autoestima e será uma forma de respeito e dignidade. A orientação de um profissional Terapeuta Ocupacional pode auxiliar nesta busca de potencialidades.

6) Cultura. Combinem filmes, revistas, jornais e livros que irão ver na semana.

Marquem um dia para debater e trocar impressões.

7) Músicas. São sempre boas pedidas. Além de enriquecer o ambiente, podem trazer boas memórias, serem usadas para relaxamento e motivação.

8) Ambiente. Ficar atento a possíveis obstáculos que possam limitar a funcionalidade do idoso, como móveis, prateleiras, degraus e tapetes. Privilegie ambientes claros, limpos, afetivos e acalentadores.

9) Desconfie se o idoso passar a ficar mais calado, entristecido ou irritado. Isso pode impactar na funcionalidade e nas relações interpessoais. Alterações de humor devem ser monitoradas e tratadas, quando necessário.

10) Cognição. Em casos de idosos que apresentam rebaixamento de funções cognitivas, como atenção, memória e raciocínio, é indicada uma avaliação profissional para mapear os déficits e indicar a necessidade de Reabilitação

Cognitiva. Porém, vale lembrar que manter o cérebro ativo ao longo da vida, exercitando diferentes habilidades, é importante para se ter uma boa reserva cognitiva na velhice e serve também como prevenção de declínios.

Sempre há alternativas para serem experimentadas! Sempre há vida!

Caso tenha alguma dúvida consulte nossa equipe multiprofissional e conheça nosso trabalho!

Disfunções sexuais masculinas

Disfunções sexuais masculinas

Existem alguns mitos que, tenho certeza, dificultam o diagnóstico e o tratamento das disfunções sexuais masculinas. E essas crenças trazem um peso que agrava o sofrimento que existe nestas situações.

  1. Homem está sempre pronto para o sexo.
  2. Homem que é homem não “falha”.
  3. Homem tem desejo em qualquer situação, com qualquer pessoa, em qualquer lugar.
  4. “Contar para o médico? De forma alguma! Que ele vai pensar de mim?”
  5. Ah, se não conseguir 2, 3, infinitas ereções seguidas, tem alguma coisa errada.

E por aí afora. E assim, muitas vezes quem leva o problema para o médico é a parceira. O machismo que permeia nossa sociedade dificulta essa conversa franca e necessária para a saúde sexual desse indivíduo, desse casal.

Mais uma vez, informação de qualidade é fundamental.

Quando o paciente chega a verbalizar o desconforto ou sofrimento associado a disfunções sexuais masculinas é porque a situação tornou-se insuportável. Ou então, a própria parceria deu um ultimato. “Ou você fala com seu médico ou eu vou falar!”. Ou ainda: “Se você não resolver o SEU problema, eu vou resolver o MEU. Vou embora”.

Lógico que não é o ideal. A consulta médica seja com o urologista ou o médico de referência, que pode ser um clínico, geriatra ou cardiologista é, geralmente, a oportunidade para essa conversa. Acolher, não julgar, facilitar a exposição do problema sempre com respeito e empatia. Essas atitudes são fundamentais para que esse paciente possa ser diagnosticado e encaminhado para o melhor tratamento.

Usamos as fases da resposta sexual, desejo, excitação e orgasmo para situar a disfunção, sempre considerando que é comum haver queixa relacionada a mais de uma fase.

Disfunções sexuais masculinas mais comuns e os tratamentos disponíveis

Ejaculação Precoce (EP)

  • 30% dos homens apresentam EP.
  • Pode ser ao longo da vida, quando presente desde o início da vida sexual, com todas as parcerias e na grande maioria das relações, ou adquirida.
  • Definida como dificuldade de controlar pelo tempo desejado a ejaculação com sofrimento associado.
  • Associa-se a ansiedade de desempenho, baixa autoestima, dificuldade para estabelecer vínculos.
  • Tratamento medicamentoso com antidepressivos, tramadol, anestésicos locais.
  • Start stop, que se baseia na interrupção do estímulo excitatório quando houver a percepção de que a ejaculação se aproxima. Após a diminuição da excitação, retoma-se o estímulo. Essa técnica “treina” um maior controle da ejaculação.
  • Squeeze, que seria a compressão da glande por alguns segundos quando o homem percebe que vai ejacular. Repete-se o processo até haver retardo na ejaculação.
  • Terapia sexual.

Disfunção erétil (DE)

  • Dificuldade recorrente ou persistente de obter ou manter uma ereção suficiente para desempenho sexual satisfatório, por tempo maior que 6 meses e na grande maioria das ocasiões.
  • 40 a 50% dos homens acima de 60 anos se queixam de DE e é uma situação que gera intenso sofrimento com impacto na qualidade de vida.
  • Alguns medicamentos podem provocar DE bem como o abuso de álcool, drogas e o tabagismo. Algumas doenças cursam com DE, como aterosclerose, diabetes, insuficiência renal ou hepática. Pode ser desencadeada por cirurgia na próstata,  por radioterapia e por deficiência de testosterona.
  • Pode ser predominantemente orgânica ou psicogênica.
  • O tratamento medicamentoso é a primeira escolha, havendo várias opções disponíveis, cada uma com seus prós e contras. Os mais usados são a Sildenafila (Viagra), a Vardenafila(Levitra) e a Tadalafila ( Cialis).
  • Injeção no pênis de substâncias que provocam a ereção, como a prostaglandina E1,  a papaverina e a fentolamina.
  • Dispositivos a vácuo para provocar a ereção.
  • Em algumas situações, o recurso da prótese peniana pode ser necessário.
  • Reposição de testosterona.
  • Psicoterapia, com destaque para terapia cognitivo comportamental.

Desejo sexual hipoativo

  • Deficiência ou ausência persistente ou recorrente de desejo e fantasia sexual levando a sofrimento e dificuldades interpessoais.
  • Menos comum no homem que na mulher, com incidência crescente ao longo da vida, podendo chegar a quase 5% nos indivíduos acima de 60 anos.
  •  Medicamentos podem interferir no desejo, como os antidepressivos e alguns anti-hipertensivos, além de abuso de álcool e drogas.
  • Importante a avaliação clínica para descartar diminuição dos hormônios da tireóide, diminuição da testosterona e depressão.
  • Lembrar que o envelhecimento cursa com diminuição de testosterona e pode justificar diminuição do desejo.
  • Várias situações de ordem afetiva podem levar ao desejo hipoativo, como ansiedade, estresse pós-traumático, luto, cansaço, estresse.
  • O tratamento depende da causa e pode envolver medicamentos, como a reposição de testosterona, antidepressivos e psicoterapia.

Finalizando, gostaria de dizer que o primeiro passo rumo à solução é o diagnóstico adequado. Para isso, é necessário que os homens se sintam motivados e confortáveis para abordar suas dificuldades sexuais. E o médico deve estar capacitado para ouvir e encaminhar essas queixas, oferecendo informações e opções de tratamento que, na maioria das vezes, envolvem medicamentos e psicoterapia.

Disfunções sexuais femininas

Disfunções sexuais femininas

Abordagem das principais disfunções sexuais femininas

Então, doutora, quando o sexo vai bem, nem falamos sobre isso. Quando não vai bem, falamos menos ainda!

É um erro pensarmos que é possível fingir que está tudo bem, que podemos levar o desconforto, às vezes a dor, a culpa, a ausência de desejo, de prazer, indefinidamente sem repercussões para nossa saúde física e mental. A identificação e a nomeação do que ocorre é o primeiro passo. “Não tenho desejo” ou “sinto dor” já norteiam a investigação. Se existe uma parceria envolvida, toque no assunto, de preferência num local neutro, com tempo e privacidade para conversar. Digo para minhas pacientes que não se discute a relação onde se TEM a relação ou no momento que esse encontro não aconteceu e gerou mágoa, raiva, frustração. Busque o diálogo. Recebo muitas pacientes angustiadas, receosas de abordar o tema sobre as disfunções sexuais femininas. Procure falar de forma clara, direta, para não haver necessidade de interpretação ou adivinhação.

“Nossa, doutora, será que ele não percebe que eu estou distante, ou que eu não estou gostando?”

Não! Muitas vezes seu parceiro não percebe mesmo, você precisa falar.

“E se ele achar que não gosto mais dele, que tenho outra pessoa em minha vida?”

Para evitar qualquer mal entendido, assertividade é fundamental.

 

Estima-se que entre 20 e 50 % das mulheres americanas apresentam alguma disfunção sexual ao longo da vida. No Brasil, o Estudo da Vida Sexual do Brasileiro, conduzido pela Dra Carmita Abdo, mostrou 28,5% das mulheres com alguma queixa relacionada à vivência da sexualidade.

 

E o que pode ser feito para tratar uma disfunção sexual? Quem trata?

O sucesso do tratamento depende de se fazer o diagnóstico da melhor forma possível. O ideal é o atendimento ser realizado por uma equipe multiprofissional, já que as disfunções sexuais femininas tendem a ser multifatoriais.

Na maioria das vezes, o ginecologista é quem primeiro a paciente procura. Muito importante o profissional acolher a queixa, ouvir sem julgamentos, explicitar os sintomas.  Há quanto tempo isso ocorre? Em que situações? Como você se sente a esse respeito? Procuramos identificar quais fases da resposta sexual estão afetadas para efeito de direcionamento do raciocínio. Assim, podemos tentar enquadrar a queixa como  disfunção do desejo, da excitação, do orgasmo ou dor .

O médico muitas vezes irá diagnosticar e tratar as alterações físicas presentes. Por exemplo, processos infecciosos ou inflamatórios na vagina se traduzem em dor e dificuldade à penetração e podem ser resolvidos de forma relativamente simples. Cremes vaginais, tratamento da atrofia genital com hormônios ou laser ou reabilitação do assoalho pélvico podem garantir a saúde sexual da paciente. A fisioterapia é de grande ajuda principalmente nos casos em que a tensão da  musculatura do períneo prejudica a atividade sexual.

Exames laboratoriais e de imagem também são importantes para descartar situações específicas, como mau  funcionamento da tireoide ou falta dos hormônios sexuais, como acontece na menopausa. Alguns medicamentos, como anticoncepcionais e drogas de ação central podem interferir principalmente no desejo e sua substituição pode ser interessante.

Muitas vezes não encontramos uma causa física para justificar a queixa e a avaliação por um psicólogo ou psiquiatra é necessária.

Existem vários recursos em terapia que podem ser usados dependendo do caso e, principalmente, da experiência do terapeuta. A terapia pode ser individual, em casal ou em grupo, dependendo da situação. Em especial a terapia cognitiva comportamental tem resultados muito bons, inclusive para o vaginismo e disfunção orgásmica, ajudando a “reprogramação” da resposta sexual. Melhorar o conhecimento sobre seu corpo e perceber como e onde você gosta de ser tocada é um bom início.

 

A masturbação, seja sozinha ou com sua parceria, é um exercício importante para esse autoconhecimento. Algumas técnicas de relaxamento e de manutenção do foco, como no Mindfullness, também são interessantes.

Pensar em sexo, fantasiar mais, aumentar o seu repertório através de leituras e filmes também é parte desse processo. Avalie como vocês têm esse encontro sexual. Será que o estímulo é adequado? E a frequência desses encontros? O local, o tempo, a disponibilidade, a intimidade. O que eu PODERIA mudar? O que eu GOSTARIA de mudar?

Alguns medicamentos podem ajudar no desejo e na excitação, como o Tribulus terrestris, que é um fitoterápico, a  bupropiona, que é um antidepressivo, a tibolona e os  próprios hormônios masculinos.

Se você estiver na menopausa, converse com seu médico sobre reposição hormonal baseada em estradiol e progesterona. A reposição de testosterona ainda não é consenso e, quando realizada, deve ser acompanhada atentamente e por períodos limitados.

Este assunto é amplo e não se esgota em alguns artigos. Espero ter contribuído!  Pensar as próprias experiências, perceber como a vivência da sexualidade impacta sua qualidade de vida e, sempre que necessário, não ter preconceito e procurar ajuda.

No nosso próximo encontro, vou abordar o tratamento das disfunções sexuais masculinas. Eles também precisam de cuidados!

Quais são os benefícios da música

Quais são os benefícios da música

Os benefícios da música quando utilizada precocemente como instrumento para acalmar os recém-nascidos irritadiços e chorosos, além do benefício cognitivo para aprendizado nas fases iniciais da vida é conhecida de forma geral em nossa sociedade e em diferentes de culturas através do mundo. Durante a infância, para aprender o abecedário e a contar, utilizamos o recurso de canções infantis para facilitar o aprendizado. Essa técnica também pode ser útil para o ensino lúdico de novos idiomas.

A Ilíada e Odisseia, duas poesias épicas gregas de Homero, empregavam rima e métrica de forma organizada para que pudessem ser transpostas através da musicalidade em linguagem falada de forma íntegra, facilitando o entendimento e gravação dos versos. Quem nunca se emocionou ao ouvir determinada partitura musical? Ou utiliza composições animadas em sua playlist para prática de atividade física?

O poder da música para elevar o bem-estar físico e mental das pessoas é conhecido há milênios. Entretanto, os efeitos da musicoterapia passaram a ser estudados e mais bem compreendidos a partir de 1940. Após a Segunda Guerra Mundial utilizava-se este instrumento para tratar os doentes já nas grandes enfermarias. Tanto os indivíduos com transtorno de ansiedade pós-traumático, quanto os que apresentavam efetivamente ferimentos na cabeça, por trauma direto ou indireto relacionados à batalha.

 

Antes do advento da Levodopa na década de 60, os pacientes internados em enfermaria com quadro de parkinsonismo, como relatado no livro e filme “Tempo de Despertar” (Awakenings), se beneficiavam de terapias não farmacológicas, sendo a musicoterapia especialmente presente nesse contexto. Alguns enfermos completamente rígidos e sem movimento tinham momentos de melhora transitória com a exposição musical ou a determinado instrumento, como o piano.

 

O “Efeito Mozart” foi estudado nas últimas décadas no que tange ao impacto na epilepsia. A despeito de não existirem estudos robustos e controlados de metodologia impecável, alguns achados descritos sugerem benefício em relação ao controle de crises epilépticas, assim como atenuação de alterações no traçado do eletroencefalograma em população exposta à música diariamente durante 8 minutos e no período de seis meses. Neste caso, a composição escolhida foi a sonata para piano em ré maior K.448 de Mozart.

Obviamente, o efeito deve se estender a outras composições de características similares, entretanto esse tema fascinante deverá ter seu conhecimento discutido e ampliado nos próximos anos. Determinados pacientes com distúrbio da linguagem (afásicos) pós-AVC podem ser incapazes de iniciar uma conversa de forma espontânea, mas serem aptos em cantar composições previamente conhecidas de forma integral.

Pacientes neurológicos com distúrbio do movimento, por exemplo, discinesia motora e tiques, como aqueles com Síndrome de Giles de la Tourette, apresentam movimento involuntário hipercinético,ou seja, que geram “movimentos em excesso”, podem apresentar intenso benefício ao escutar ou tocar instrumento.

A causa desse fenômeno ainda é desconhecida, mas, uma parte desses movimentos involuntários pode ser “canalizada” para a atividade motora ou sincronizada com o ritmo da música de forma inconsciente. Em enfermos com transtornos hipocinéticos, ou seja, onde os movimentos são reduzidos, como a Doença de Parkinson, essa técnica ainda é utilizada para amenizar seus sintomas de forma complementar.

 

Para pacientes com demência, ou seja, indivíduos com declínio de suas funções intelectuais e que evoluem com perda de sua independência (o principal exemplo é a Doença de Alzheimer), o efeito da música pode ocorrer mesmo em fases mais avançadas.

 

A repercussão nessa população envolve resposta emocional, lembrança de memórias antigas e estímulo de determinadas faculdades cognitivas. O efeito pode ser duradouro e significar melhora do humor e comportamento. Pode gerar interação social e sensação de pertencimento, em indivíduos que muitas vezes se tornam complementarmente isolados.

“Não é preciso possuir conhecimentos formais de música- na verdade, nem sequer é preciso ser particularmente ‘musical’- para apreciá-la e responder a ela nos níveis mais profundos.Ela é parte do homem, e não existe cultura humana na qual não seja altamente desenvolvida e valorizada. Sua própria ubiquidade pode banalizá-la no cotidiano: ligamos e desligamos o rádio, cantarolamos uma melodia, acompanhamos o ritmo com o pé, vasculhamos nossa mente procurando a letra de uma velha canção e não damos a menor importância a tudo isso. Mas para quem está perdida na demência, a situação é diferente. A música não é um luxo para essas pessoas, é uma necessidade, e pode ter um poder superior para devolvê-las a si mesmas, e aos outros, pelo menos por algum tempo.”

(Oliver Sacks – Alucinações Musicais: relatos sobre a música e o cérebro. 2ª Edição. Companhia das Letras. Página 365)

Finalmente, como dizia T. S. Eliot: “você é a música, enquanto a música dura”.

Disfunções Sexuais. E agora, doutora?

Disfunções Sexuais. E agora, doutora?

Acredito que o aprendizado se constrói pela interação da informação com o meio em que o indivíduo se insere, sua cultura, troca de experiências e vivências. Também sobre sexo  aprendemos continuamente ao longo da vida. Será? Deveria ser, tenho certeza. Ter curiosidade e interesse pelo assunto é muito importante, mas não é suficiente. Evoluir, aprender, praticar, inserir o sexo no nosso cotidiano e não deixá-lo num lugar distante, quase um acessório para ser usado em ocasiões especiais, é essencial. Essas ideias facilitam a vivência saudável da sexualidade, independente de parceria ou fase da vida.

Sexo funcional é o que acontece sem dor, sem desconforto, com satisfação. Na disfunção ocorre sofrimento, angústia.

 

Disfunções sexuais

Didaticamente dividimos as disfunções sexuais quanto à época do surgimento em primária “doutora, sempre foi assim” e secundária, quando aparece em um momento mais tardio, muitas vezes associado a um evento pontual “doutora, até meu marido me trair, eu sentia desejo”.

Também a duração da queixa importa. “Doutora, semana passada tivemos relação e eu não senti prazer” é diferente de “doutora, faz meses, anos, que não sinto prazer”. De modo geral, se a queixa existe por pelo menos seis meses consecutivos, devemos investigar de forma mais detalhada.

 

Queixas mais comuns que recebo em meu consultório

  1. Diminuição do desejo, principalmente o espontâneo. No texto anterior abordei o nosso ciclo de resposta sexual. Vale reler!

Às vezes, a falta de desejo é generalizada e pode indicar alguma doença sistêmica, como depressão, hipotireoidismo ou uso de algum medicamento, especialmente antidepressivos.

“Não sinto vontade de fazer coisa alguma” é diferente de “doutora, tenho disposição para tudo, menos para o sexo”.

  1. Transtorno de excitação. Na verdade, para nós mulheres, desejo e excitação se sobrepõem. Procure manter sua atenção na atividade sexual, evite pensamentos desviantes.
  2. Disfunção do orgasmo. Somente com a parceria? Ou mesmo na masturbação você não consegue sentir prazer?
  3. Dor associada à relação sexual. Todas as vezes, eventualmente? E para ser examinada, ou para ser tocada sem penetração, também dói? Dor, desconforto eventualmente é diferente de “doutora, não consigo ter penetração. Parece que minha vagina está fechada”. Procuramos diferenciar a dispareunia, que é dor à penetração, do vaginismo, quando não é possível qualquer tipo de penetração. Algumas mulheres apresentam dor na região externa, na vulva, a chamada vulvodínia.

As disfunções sexuais mais comuns para os homens

  1. Diminuição ou inibição do desejo, que muitas vezes se associa a estresse, dificuldades com a parceria, uso de alguns medicamentos. Menos frequente é o excesso de desejo, que pode ou não caracterizar uma compulsão.
  2. Disfunção erétil, ou seja, dificuldade para manter a ereção por tempo suficiente para permitir a penetração. É mais comum nos homens com mais idade e se associa a alguns hábitos, como tabagismo, abuso de álcool, a algumas condições clínicas, como diabetes, doença aterosclerótica e ao uso de alguns medicamentos.
  3. Ejaculação precoce é a situação mais frequente e tende a ser mais comum em homens jovens, principalmente no início da vida sexual. A ansiedade tem papel importante na sua gênese.
  4. Dor associada à penetração ou à ejaculação.
  5. Ausência de orgasmo

Vale lembrar que essa classificação tem valor didático e, na prática, muitas vezes existe a associação de várias queixas e uma disfunção pode causar o aparecimento de outra. Por exemplo, um homem com disfunção erétil pode desenvolver diminuição do desejo, numa tentativa muitas vezes inconsciente de evitar uma situação que o coloque frente à sua disfunção.

 

Uma mulher com dor à relação sexual pode desenvolver diminuição do desejo e da excitação.

Outro dado interessante é haver com frequência parcerias disfuncionais. Por exemplo, o homem com ejaculação precoce muitas vezes se relaciona com uma mulher com diminuição do desejo.

Entender que essas queixas são frequentes e muitas vezes negligenciadas em uma consulta de rotina é apenas o início da jornada. Procure se informar e lembre-se de que o sigilo médico garante sua privacidade. Busque ajuda!

A Retina na Terceira Idade

A Retina na Terceira Idade

A população mundial tem envelhecido e desacelerado o seu crescimento em número de indivíduos. Tal fenômeno pode ser explicado pela maior expectativa de vida que alcançamos hoje graças aos constantes avanços da medicina e da ciência, associados às menores taxas de fertilidade. Segundo dados da Organização das Nações Unidas de 2019, o segmento populacional constituído de pessoas acima de 65 anos é atualmente a fatia da população que mais cresce, superando até mesmo a camada da pirâmide formada pelas crianças de cinco anos. Como era de se esperar, o referido envelhecimento trouxe novos desafios para a medicina, em termos de compreensão das mudanças do corpo inerentes ao avançar da idade, tratamento de doenças características da 3ª idade e, principalmente, estratégias de prevenção para se evitar o adoecimento dos idosos.

Tal fenômeno do envelhecimento populacional é evidente em diversas áreas da medicina, incluindo a oftalmologia, em especial a subárea da especialidade que estuda as doenças da retina. E aqui vai um exemplo clássico: a degeneração macular relacionada à idade (DMRI) é considerada hoje a principal causa de cegueira na população acima de 50 anos nos países desenvolvidos.

Trata-se de uma degeneração adquirida na parte central da retina, definida como
a parte do olho responsável por transformar os sinais luminosos captados em sinais elétricos, para serem então posteriormente interpretados pelo cérebro. Por definição, a DMRI é uma patologia relacionada ao envelhecimento das células que compõem a mácula e, em geral, os pacientes com esta condição referem não enxergar bem na parte central do seu campo visual.
Sabe-se que manter uma dieta saudável, evitar doenças como a hipertensão arterial sistêmica e a obesidade ou usar óculos escuros em ambientes ensolarados pode evitar o aparecimento da DMRI.

Entretanto, a dica de ouro é manter uma rotina de visitas periódicas ao
oftalmologista, de modo que o paciente seja submetido ao exame de mapeamento de retina pelo menos uma vez por ano. Só assim será possível o diagnóstico precoce do aparecimento de uma eventual DMRI, de modo a evitar, ou pelos menos minimizar, os impactos da doença na qualidade visual.

Outras doenças da retina são a retinopatia diabética e a retinopatia hipertensiva que valem citação também dado o aumento de sua prevalência com a idade. Diabetes e hipertensão estão entre as doenças mais comuns nos
países desenvolvidos e sabe-se que a frequência das duas condições aumenta com a idade. Ambas comprometem o funcionamento normal dos vasos sanguíneos da retina, causando deformidades, extravasamento de líquido e hemorragias. E isso é um reflexo do que está acontecendo nos vasos sanguíneos nos demais órgãos do corpo daquele paciente, como no coração, rins e cérebro.

As retinopatias, tanto a diabética como a hipertensiva, se instalam devagar e por
muitas vezes não há sintomas no início. Entretanto, o embaçamento e a diminuição da acuidade visual se tornam frequentes após anos de descontrole da doença de base. Então, a prevenção e as visitas regulares ao médico responsável pelo controle do diabetes e da hipertensão são a chave do sucesso.

Em suma, um envelhecimento com manutenção da qualidade de vida requer cuidados adicionais com a saúde, e a ocular não foge a esta regra. Neste contexto, a retina é um tecido nobre com o qual deve-se redobrar as atenções na 3ª idade, com visitas regulares a um oftalmologista capacitado para realizar um exame ocular completo. Afinal de contas, ter uma boa visão é fundamental para que se desfrute com qualidade da tão esperada “melhor idade”.