por Dr. Raphael Ribeiro Spera | set 17, 2021 | Idosos e Famílias
Quais são os distúrbios auditivos e musicais que podem ocorrer?
Sabemos que o acometimento de regiões distintas do ouvido e cérebro podem gerar diferentes formas de alteração deficitárias da percepção auditiva e musical, eventualmente de forma completa, que denominamos de “amusia”.
Um paciente com lesão do hemisfério direito pode tornar-se parcial ou incompletamente incapaz de diferenciar tons, enquanto no hemisfério esquerdo os ritmos. Um exemplo histórico anedótico relaciona-se ao argentino Che Guevara: descrevia-se que ele dançava mambo, enquanto uma orquestra tocava tango. Existem relatos de músicos profissionais, como pianistas, que sofrem uma lesão no cérebro e terão incapacidade completa em detectar tons, compor e executar partituras.
A perda da percepção auditiva – chamada de hipoacusia, que pode ocorrer por doenças específicas do ouvido ou do próprio envelhecimento (ou das outras estruturas relacionadas ao sistema auditivo), é frustrante e incapacitante.
Muitas vezes o indivíduo tem dificuldade de comunicar-se, fica triste, sem estímulo e, caso não identificado precocemente, não é incomum o desenvolvimento de transtorno depressivo e declínio cognitivo. Há casos que os próprios amigos e familiares deixam de tentar se comunicar com os indivíduos portadores de distúrbios auditivos, e o idoso afetado fica muito isolado. Leia o artigo A Importância da Audição na Velhice!
O filme “O Som do Silêncio” indicado ao Oscar em 2021, discorre sobre a história de um baterista que fica surdo e, mesmo após a realização de implante coclear, continua a ser incapaz de apreciar música pela limitação do método, deflagrando dilemas psicológicos e sociais.
Entretanto, nem sempre essas pessoas perdem suas capacidades musicais. Exemplo histórico, o alemão Ludwig van Beethoven iniciou perda auditiva de origem obscura aos 26 anos, e ficou praticamente surdo aos 46 anos. Mesmo assim, tardiamente, compôs sua última melodia – A Nona (ou Sinfonia n°9 em ré menor), uma das maiores obras-primas da história da música.
Outras vezes, os achados musicais patológicos são “positivos”, ou seja, apresentam-se de forma involuntária, sem estímulo sonoro do meio exterior e de forma repetitiva. Por exemplo, indivíduos com surdez grave podem apresentar alucinações musicais, eventualmente de forma consciente e tais sons não estão presentes de forma real no ambiente. Um paciente idoso que avaliei recentemente, com grave perda auditiva bilateralmente, disse-me que “parecia que estava tocando uma orquestra musical em seu ouvido durante todo o dia”.
Pacientes que sofrem de epilepsia do lobo temporal podem ter sintomas premonitórios à crise epiléptica propriamente dita, denominada “aura musical”, em que ouvem determinado trecho de alguma melodia ou música. Eventualmente, o evento pode ser “ictal”, ou seja, ser elemento da própria crise epiléptica.
Outro exemplo de ocorrência mais comum de distúrbios auditivos, que a maioria das pessoas sofre ao longo da vida de forma “benigna”, é o brainworm ou earworm. Basicamente, é a repetição incessante e involuntária na mente de determinados trechos musicais, geralmente três a quatro compassos, como jingles de propagandas ou músicas, na maioria das vezes de exposição recente, baixa complexidade musical e particularmente desagradáveis.
Entretanto, determinadas doenças podem ter esses sintomas, por exemplo, pacientes com Doença de Parkinson, Síndrome de Tourette e uma forma pós-infecciosa de parkinsonismo descrita no início do século XX – A Doença de vonEconomo ou Encefalite Letárgica. Ela foi narrada no livro “Tempo de Despertar” de Oliver Sacks (1973), adaptada ao filme homônimo em 1990 e no formato de ópera por Tobias Picker recentemente.
De outro modo, existem os indivíduos com funções acentuadas de determinados aspectos auditivos e musicais. Essa característica nem sempre gera algum ganho funcional, como melhores habilidades de comunicação ou musicais, mas possuem aspectos interessantes.
Um dos exemplos mais habituais é o “ouvido absoluto”, capacidade de identificar tons e notas musicais e qualquer tipo de som como assoar o nariz ou barulho do garfo ao cair no chão. Muitas pessoas, mais frequentemente músicos, possuem essa característica de forma natural. Não obstante, sabemos que fatores ambientais, como exposição à música e aprendizado de instrumentos musicais e línguas tonais – como o mandarim – principalmente na tenra idade, podem ser fator importante no desenvolvimento desta habilidade.
Outro interessante e famoso exemplo, o estadunidense Kim Peek (ou “o homem-biblioteca”, falecido em 2009) – era portador da síndrome de Savant, basicamente caracterizada por aspectos sociais semelhantes ao autismo, dificuldades cognitivas como abstração e linguagem, além da perda de características motoras – principalmente de coordenação.
Entretanto, de forma ímpar, Peek apresentava capacidades intelectuais acima do normal em outras áreas, como cálculo, memória e música: ele era capaz de recitar qualquer trecho de aproximadamente 12 mil livros, além de ouvir uma partitura inteira uma única vez e se lembrar de forma completa de cada aspecto musical, mesmo que muitos anos após a exposição inicial. Dustin Hoffman, no filme Rain Man (1988), inspirou-se em Kim para encenar o personagem savant Raymond Babbit.
Em outro aspecto, temos os sinestetas, que são capazes de conectar diferentes tipos de sentidos, como por exemplo, ouvir um determinado som e visualizar uma cor ou sentir gosto. Esse tipo de achado pode ser algo individual e existente desde o nascimento em algumas pessoas, e também presentes como aura de pacientes que sofrem de enxaqueca, efeito de intoxicação medicamentosa ou secundário ao uso de substâncias exógenas, como o LSD.
“Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantropo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo […] de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos. Iludido constantemente, na esperança de uma melhora, fui forçado a enfrentar a realidade da rebeldia desse mal, cuja cura, se não for de todo impossível, durará talvez anos”
(Ludwig van Beethoven – Testamento de Heiligenstadt – Outubro de 1802)
Não existem dúvidas de que a audição é um sentido fundamental na sociabilidade e no reconhecimento melhor do ambiente. A idade, assim como aumenta o risco de redução da nossa capacidade visual e enfraquecimento dos demais sentidos, também aumenta o risco de surgir distúrbios auditivos e tornar a audição pior. No entanto, hoje, graças a avanços tecnológicos marcantes, há tratamentos que podem melhorar muitos dos problemas auditivos. Procure um médico o quanto antes caso a sua audição esteja dando sinais de piora.
por Dra. Luciene Miranda Barduco | set 14, 2021 | Idosos e Famílias
De posse das informações sobre anatomia que partilhei com vocês anteriormente, hoje vamos entender sobre a fisiologia da resposta sexual, ou seja, como o corpo se prepara para a atividade sexual.
O cérebro é o grande maestro. Os órgãos pélvicos são os músicos. Hormônios e neurotransmissores são responsáveis pela comunicação entre o cérebro e os órgãos genitais e pelos ajustes necessários à boa execução dessa bela sinfonia.
Existem diferenças entre o ciclo da fisiologia da resposta sexual masculino e feminino e vários estudiosos já propuseram seus modelos.
O primeiro que se conhece foi apresentado por Masters e Johnson, um ginecologista e uma psicóloga, na década de 60. É o chamado modelo linear da resposta sexual, que o tempo mostrou ser válido para a resposta masculina apenas.

Modelo linear de Masters e Johnsons
Na sequência, tivemos Kaplan que incluiu o desejo em seu modelo.


Modelo linear de Masters e Johnsons adaptado por Kaplan.
Mais tarde, já nos anos 2000, foi a vez de Basson apresentar o que, até hoje, parece ser o exemplo mais completo e coerente com as nuances da resposta sexual feminina.

Ciclo de respostas de Basson.
E porque é importante termos essas noções sobre a fisiologia da resposta sexual?
Primeiro para não compararmos nossa resposta à de nosso parceiro, muitas vezes do sexo masculino. A ideia de excitação/orgasmo/resolução vale para a maioria dos homens. Nós, mulheres, temos uma resposta sexual circular, não linear. O que significa que posso iniciar a atividade sexual sem desejo, sem excitação, num estado “neutro” e me envolver ativamente na relação, num crescendo de sensações. Posso me distrair e até perder a excitação, mas, dependendo de estímulos exteriores ou interiores, como memória, fantasias, voltar a me sentir excitada.
Também importa saber que não existe desejo de melhor ou pior qualidade. Muitas mulheres se sentem cobradas por não “procurarem” sua parceria, ou seja, por não apresentarem desejo espontâneo, apenas o desejo responsivo. Não se cobre! Principalmente nas relações de maior duração é assim que somos! O desejo se manifesta, na maioria das vezes, a partir do estímulo adequado.
Outra observação é sobre a necessidade da relação passar por todas as fases. Para o homem, praticamente não se dissocia o sexo com penetração do orgasmo, o que pode sugerir que para uma relação sexual ser satisfatória o orgasmo é obrigatório. Para muitas mulheres a gratificação sexual, o prazer, não inclui, necessariamente, o orgasmo, também chamado clímax. A proximidade, as carícias, a excitação podem ser tão ou até mais satisfatórias que o orgasmo propriamente.
Então não se cobre por não ter orgasmo em toda relação sexual. Se você se sentir satisfeita, feliz, gratificada, não se preocupe. Permita-se experimentar o prazer de várias formas, sem focar no orgasmo. Essa informação pode fazer muita diferença na vivência da sua sexualidade.
A resposta sexual é modulada por várias substâncias produzidas pelo nosso corpo, por mecanismos neurológicos, neuroendocrinológicos além de fatores ambientais e relacionais. Ou seja, é uma resposta complexa, mas passível de entendimento e, mais que isso, passível de aprendizado, treino e evolução.
E quais são as substâncias que modulam a resposta sexual?
1. Hormônios sexuais
- Femininos: estradiol e progesterona, produzidos nos ovários e testosterona, produzida em menor quantidade nos ovários e nas glândulas suprarrenais.
- Masculinos: testosterona, produzida principalmente nos testículos e nas glândulas suprarrenais.
2. Neurotransmissores, produzidos no cérebro:
- Facilitadores da resposta sexual: dopamina, óxido nítrico, ocitocina
- Inibidores da resposta sexual: serotonina, GABA e opióides.
A adrenalina tem efeito facilitador com relação à congestão pélvica para as mulheres, e inibidor para os homens, o que pode atrapalhar a ereção.
Espero ter conseguido trazer conhecimentos e despertar a curiosidade de vocês. Se tiverem dúvidas ou contribuições entre em contato!
Farei o possível para responder a todos.
Com essas noções, pretendo abordar as principais disfunções sexuais na próxima oportunidade.
Fiquem à vontade para compartilhar!
por Dra. Luciene Miranda Barduco | set 3, 2021 | Idosos e Famílias
Sexo também se aprende sim!
Talvez por ingenuidade, ou por prepotência, achamos que já nascemos dotados com toda a informação necessária e suficiente para desempenharmos algumas funções de modo perfeito.
Quando minha filha nasceu, só fui descobrir que a maternidade não era inata, intuitiva e perfeita, tempos depois. Tinha certeza de que poderia identificar a razão do choro, do desconforto e, lógico, teria todas as respostas. Assim é com o sexo.
Já nasci sabendo. Não é instinto? Aprender, treinar, evoluir, bobagem! Quanto tempo nós perdemos com esse tipo de pensamento e as atitudes dele advindas. Levamos anos para aprender um ofício, uma nova língua. Assimilamos com esforço e, se não praticarmos, se não nos atualizarmos, perdemos a fluência, o traquejo. Ficamos desatualizados e ineficientes.
Esse olhar tão diferente me surpreende, sempre. O instinto sexual existe, assim como a fome, o sono, e a necessidade de interação social. E a primeira dica é essa: Veja a vivência da sexualidade como uma habilidade a ser desenvolvida e literalmente treinada ao longo da vida.
Para ser médica foram seis anos de faculdade. Entre residência e outras especializações, mais 8 a 10 anos. Para aprimorar o que aprendi, acrescentar experiência, desenvolver o meu jeito de clinicar e cuidar, são 30 anos.
Sexo se aprende, sim, desde as noções básicas de anatomia, fisiologia até os caminhos mais delicados e complexos da resposta sexual, todos os hormônios e neurotransmissores envolvidos, toda a beleza e dinâmica das interações entre quem eu sou, o que vivi e experimentei e o mundo.
Quanta riqueza, que jornada maravilhosa e gratificante. E essa é minha proposta, quase um desafio para vocês. Farei alguns artigos numa sequência didática e complementar para fornecer informações necessárias para podermos nos graduar com distinção também com relação ao sexo.
Aprender, aprimorar, exercitar. A saúde sexual é um dos pilares do que entendemos como saúde, juntamente com a saúde física, psíquica, espiritual e social. Somos o resultado da interação desses fatores, e a sensação de felicidade, bem estar, depende do equilíbrio entre eles.
Hoje, começo com anatomia, ou seja, quais são os órgãos relacionados à biologia do sexo. Deixarei, de propósito, o cérebro para outro artigo. Sim, o cérebro é o principal órgão envolvido nessa sinfonia. É o maestro, e merece um capítulo a parte.
Sexo também se aprende: Anatomia feminina
Órgãos genitais internos e externos


Sexo também se aprende: Anatomia masculina
Órgãos genitais internos e externos


Vou chamar a atenção para um pequeno órgão, às vezes subestimado ou até negligenciado. O clitóris.
Sexo também se aprende: Anatomia do clitóris

O que ele tem de tão especial? Um vulcão de sensações.
A pequena parte visível, a glande, reúne centenas de terminações nervosas o que o torna muito sensível e capaz de gerar, quando bem estimulado, muito prazer. Lembre-se de explorá-lo em sua totalidade.
E agora, doutora, nós ficaremos somente nas preliminares? Sim, por hoje. Preliminares quando caprichadas e sem pressa são um bom caminho para o prazer.
No próximo artigo, vamos aprender sobre o funcionamento dos nossos genitais e como eles se preparam para o sexo. Ah, se vocês tiverem dúvidas, entre em contato. Eu pretendo fazer uma sessão só para respondê-las.
por Dr. Raphael Ribeiro Spera | ago 27, 2021 | Idosos e Famílias
A audição na velhice tem ligação com a história, arte, música e neurologia.
Historicamente a música apresenta uma característica social e coletiva ímpar. Possivelmente conferiu vantagem evolutiva à espécie humana pela capacidade em agrupar indivíduos, transmitir arte e conhecimento por gerações. Jean-Jacques Rousseau, filósofo e compositor, em seu Ensaio sobre a origem das línguas sugeriu que a fala e o canto não se distinguiam entre os homens primitivos. Darwin acreditava que a música precedeu a comunicação da linguagem falada propositiva.
Existem campos de pesquisa sobre o modo de comunicação dos neandertais, nos quais se invoca a possibilidade de sociabilidade entre os indivíduos naquela época através de melodias e sons tonais. Portanto, infere-se que a música surgiu antes da linguagem estruturada de forma gramatical, falada ou escrita. Outros pesquisadores atribuem a música como subdomínio do campo da linguagem e teria surgido posteriormente. O que sabemos é que está presente de forma onipresente durante o desenvolvimento de nossa história.
Seria a música uma característica intrínseca dos seres humanos? Aparentemente não. Sabemos que outros animais se comunicam através de sons melódicos, sendo as aves a principal e mais desenvolvida classe, ao qual apreciamos seu canto desde os primórdios da humanidade. Seria, portanto, uma característica peculiar dos seres vivos do planeta Terra? Pode ser que sim. Não sabemos.
Uma passagem interessante do livro O Fim da Infância de Arthur Clarke (1953) discorre sobre uma invasão alienígena que, diferentemente do clichê Hollywoodiano, busca ajudar o desenvolvimento da humanidade através do compartilhamento de avançado conhecimento científico, social, econômico e liderança política.
Esses seres, chamados “Senhores Supremos”, participam de uma apresentação musical orquestrada de Stravinsky e ficam intrigados, pois não podem reconhecer a música: “Embora tudo o que se sabia indicasse o contrário, era possível que os Senhores Supremos não tivessem o menor ouvido musical. Aconteceu, porém, que, após o concerto, Thanthalteresco [Senhor Supremo] procurou os três compositores cujas obras haviam sido tocadas e os cumprimentou pelo seu ‘grande engenho’, fazendo com que eles se retirassem com expressões satisfeitas, mas vagamente intrigados.”
O som possui características únicas: é gerado através da vibração de um determinado material, propaga-se no ar através de ondas sonoras, que finalmente serão recebidas pelos órgãos auditivos dos animais que os possuem (ou seus análogos de outras espécies).
Compõe-se, basicamente, de altura (agudo ou grave), intensidade (forte ou fraco) e timbre, uma característica qualitativa individual do instrumento ou animal que o produz. Podem organizar-se em ritmo, melodias e harmonias, formando o que conhecemos como música. Quando composta e executada de forma sublime, apresenta alta complexidade de leitura, entendimento e composição, além de gerar componente emocional no interlocutor. O que diferencia a música do ruído, basicamente, é a regularidade de suas ondas sonoras, que são complemente caóticas no ruído, e, portanto, desagradável ao ouvinte.
A despeito de sabermos que sua origem é muito antiga, possivelmente antes ao surgimento do Homo Sapiens, os primeiros registros escritos datam próximo ao século VIII – período musicalmente datado como “música antiga ou medieval”, o Cantochão, que lembra os sons que escutamos atualmente em determinados momentos nas igrejas e abadias.
O canto gregoriano é um dos tipos mais reconhecidos. Ganhou complexidade e evoluiu através dos séculos em música renascentista, barroca, clássica, romântica e, finalmente, nossa música contemporânea dos séculos XX e XXI. O desenvolvimento humano e social sempre foi atrelado à arte, sendo a música um de seus pilares fundamentais. É constante e universal.
Audição na Velhice: Como o cérebro percebe o som e a música
Quais as regiões e sistemas do sistema nervoso central participam de algo tão magnífico?
Sabemos que no ouvido existe um aparelho “captador e amplificador” dos sons, constituído da orelha externa, do tímpano (uma membrana especializada) e seus pequenos ossículos (martelo, bigorna e estribo), que se conectam a cóclea. Esta é responsável por receber as vibrações sonoras externas, transformá-la em sinais elétricos através de células específicas e especializadas. Tais estímulos serão transportados através do nervo auditivo até a região do troncoencefálico, uma estrutura que conecta o cérebro à medula espinhal e possui uma espécie de estações transmissoras especializadas. Assim, o estímulo pode ser transmitido à uma região específica do cérebro responsável pela recepção dos sons localizada no lobo temporal também chamada de “giros de Heschl”, sendo interpretado pelas estruturas adjacentes.
O órgão de Cortifoi descoberto no século XVIII por um italiano homônimo, é uma estrutura chave na recepção dos sons, pois possui capacidade de amplificação, localização espacial e organização tonotópica, isto é, diferentes regiões são capazes de captar alturas diferentes do som. Por exemplo, sua estrutura é em formato de cone, onde a base recebe principalmente os sons mais agudos e no ápice os mais graves. Em relação à origem espacial do estímulo sonoro, existe uma percepção tridimensional do som, desse modo sabemos a localização de uma determinada fonte sonora de olhos fechados ou em um ambiente escurecido.
O que acontece com a nossa audição na velhice?
Certamente isso gerou vantagens adaptativas e evolutivas aos animais. Do ponto de vista das estruturas corticais, observa-se lateralidade. O hemisfério direito possui capacidade em relação à identificação de diferentes tipos de tons, enquanto o esquerdo percebe ritmos. Em média, somos capazes de identificar sons de 20 até 20 mil Hertz, sendo a faixa mais aguda acometida pela nossa audição na velhice, que diferencia 1.400 tipos de tons. Ler o artigo Distúrbios Auditivos e Musicais!
por Dr. Rodrigo Sousa Madeira Campos | ago 24, 2021 | Idosos e Famílias
A incontinência urinária e envelhecimento é um problema sem solução?
A incontinência urinária é a incapacidade de reter a urina voluntariamente. Muitos fatores contribuem para o surgimento do problema e a incidência aumenta com a idade.
Além de mudanças próprias do envelhecimento, várias doenças podem aparecer ao longo da vida e contribuir para o surgimento ou agravamento da incontinência.
Nas mulheres, a menopausa contribui para o surgimento do quadro. A redução dos hormônios femininos, os estrogênios, causa atrofia da uretra e da vagina. Além disso, ocorre diminuição da produção de muco, que é uma substância gelatinosa que contribui para a vedação da uretra. O músculo responsável pela continência, o esfíncter, sofre atrofia das suas fibras. Além disso, esta estrutura pode ter sofrido lesões por partos mal assistidos e cirurgias da vagina ou períneo.
Nos homens, as doenças da próstata são fatores importantes. No crescimento benigno, chamado de hiperplasia, ocorre compressão do canal da uretra. A bexiga tem que gerar mais pressão para que a micção ocorra. Sua musculatura sofre hipertrofia e vai desenvolver contrações involuntárias. Isso leva ao aumento do número de vezes que o paciente precisa urinar, além da sensação de ter que ir ao banheiro imediatamente, a urgência urinária. Se essas contrações involuntárias forem muito fortes, o esfíncter pode não suportar essa pressão, resultando no escape da urina.
Em homens idosos com dificuldade de locomoção, esse problema vai ser especialmente importante. A parede da bexiga perde a sua elasticidade e acumula menos urina, o que agrava ainda mais o processo. O tratamento cirúrgico da hiperplasia prostática tem um risco pequeno de prejudicar o esfíncter urinário. Os sintomas decorrentes das alterações da bexiga podem durar até seis meses após a cirurgia.
Nos homens também pode surgir o câncer de próstata. Em muitos casos o crescimento benigno e a doença podem coexistir. A maioria dos tratamentos atuais pode afetar a continência urinaria, normalmente por comprometerem diretamente o esfíncter urinário ou reduzirem a capacidade da bexiga acumular urina.
O envelhecimento contribui com a incontinência urinária
Com o envelhecimento também ocorre redução da capacidade do órgão e aparecimento de contrações involuntárias, condição conhecida como bexiga do idoso. Existe uma tendência à perda de massa muscular generalizada, especialmente em indivíduos sedentários, a sarcopenia. A musculatura da região pélvica também vai sofrer.
O diabetes melitus de longa data pode comprometer a inervação da bexiga e do esfíncter em ambos os sexos. Além disso, o aumento do volume de urina produzida, situação comum no diabetes descompensado, vai agravar qualquer forma de incontinência urinária.
Na mesma linha, medicações que aumentam a produção de urina podem piorar o problema. Diuréticos, por exemplo, muito usados em indivíduos com hipertensão arterial e danos cardiológicos, são complicadores importantes.
A doença de Parkinson também leva ao surgimento de contrações involuntárias da bexiga e, na maioria dos casos, a uma lentidão dos movimentos. Boa parte dos pacientes vai ter essas contrações associadas à dificuldade em chegar ao toalete e abrir as vestes.
Os acidentes vasculares cerebrais ou derrames, assim como as demências, causam incontinência por vários mecanismos. O indivíduo pode perder a percepção da necessidade de urinar assim como o controle dos reflexos necessários para o comando adequado da micção.
Enfim, alimentação saudável, atividade física, não fumar, consumo moderado de álcool, tratamento das doenças da próstata, reposição hormonal se indicado, tudo é importante. Fisioterapia pélvica e até o tratamento cirúrgico pode ser necessário. Procure sempre a orientação do seu médico e não deixe de falar com ele sobre este problema.
por Dra. Luciene Miranda Barduco | ago 19, 2021 | Idosos e Famílias
Existe sexo após a menopausa? Sim, existe!
Somos seres sexuais e assim o seremos até o final de nossos dias. Difícil de acreditar, não é?
Principalmente porque somos pouco educados com relação a sexo e sexualidade. Sim, são conceitos diferentes. Sexualidade é muito mais amplo e fala sobre essa energia que todos nós carregamos, a energia vital, o tesão.
- Sexo é biológico. Função reprodutora comum a todos os animais. Mas para nós, seres humanos, o sexo é também prazer, encontro, vontade, válvula de escape e tanto mais.
Lógico que a forma de vivenciarmos a própria sexualidade varia ao longo da vida. Como todo o mais que somos. A cada etapa, nosso corpo nos oferece uma forma de experimentar o prazer.
O que muda para nós, mulheres, com a menopausa, com o envelhecimento?
Nossos ovários produzem, a partir da puberdade, hormônios que causam mudanças externas, voz, distribuição de gordura, aumento das mamas, e mudanças também na forma como nosso cérebro passa a identificar e responder a estímulos sexuais. Existe uma modulação do nosso SNC devida a esses hormônios, que são o Estradiol e a Progesterona.
Praticamente todos os órgãos do nosso corpo apresentam receptores para esses hormônios que produzimos até a chegada da menopausa. A maioria das mulheres menstrua até por volta de 50 anos. Nessa faixa de idade, é comum vermos alterações no ciclo menstrual, tanto na duração e volume do sangramento quanto na regularidade do intervalo entre as menstruações. Esse período de irregularidade menstrual tem duração imprevisível e se chama climatério. Nessa fase, muitas mulheres não apresentam sintomas que possam ser associados a essa perda progressiva da função ovariana. E a menopausa, o que é? É a falência ovariana que se traduz pela perda da capacidade de produção desses hormônios sexuais. Geralmente falamos em menopausa quando a menstruação não aparece por, pelo menos, 12 meses consecutivos.
E agora, doutora, a menopausa chegou, não produzo mais hormônios, e o sexo? Acabou?
Se praticamente todo meu corpo “funciona” com esse combustível que agora não tenho mais, como me adaptar? Existe sexo após a menopausa?
Alguns órgãos acusam precocemente esta diminuição do estrogênio. O tecido que reveste a vagina, a mucosa vaginal, é um desses. Na menopausa, a espessura da mucosa vaginal diminui e isso pode causar desconforto durante a penetração. A lubrificação tende a ser mais escassa e demora mais para acontecer, o que também gera desconforto. Numa fase inicial, um lubrificante comum, de preferência a base de água, costuma ser suficiente para garantir conforto na penetração. Com o tempo precisamos “nutrir” a parede vaginal para que ela não fique tão atrófica e sensível.
Vale dizer que a uretra, que se exterioriza ao lado da vagina, também sofre pela falta de estrogênio, com aumento de incidência tanto de infecções urinárias quanto de graus variados de dificuldade para “segurar” a urina, o que chamamos de incontinência urinária.
Para melhorarmos as condições da vagina e da uretra podemos usar cremes ou óvulos com estrogênio por via vaginal. Esse uso, inclusive, ajuda a manter saudável a flora bacteriana da vagina, o que é importante para evitar alterações no odor em decorrência do crescimento de outros tipos de bactérias.
Estas medidas são simples, destituídas de risco, e facilitam a manutenção de atividade sexual satisfatória na menopausa. O conforto na penetração e a ausência de dor facilitam o desejo e o prazer. Aliás, quando a mulher tem uma relação sexual satisfatória, prazerosa, fica muito mais propensa a pensar em sexo, o que motiva os próximos encontros. Costumo dizer para minhas pacientes que o sexo ajuda a manter a saúde da vagina. Sabem por quê? Durante a excitação existe um afluxo grande de sangue para a região genital, o que melhora a elasticidade da vagina, que também é um fator importante no conforto. Além disso, a realização de exercícios específicos para os músculos da região genital, chamado assoalho pélvico, garantem elasticidade e funcionalidade este será tema de uma próxima conversa nossa. Se o sexo é bom, se não ocorre dor, ardência, fica tão mais fácil querer de novo!
E quanto mais eu quero, mais gostoso fica.
Lógico que o prazer e o desejo não dependem apenas da condição física da vagina. Outros sintomas da menopausa, como as ondas de calor, os fogachos, alterações na qualidade do sono, às vezes no humor, também podem interferir nessa vivência. Assim, retomo algumas dicas que já dei para vocês em outro artigo sobre os Sintomas da Menopausa. Cuidem da sua saúde física e mental!
Invista no relacionamento com sua parceria, divirta-se, tenha uma atitude positiva com relação a essas mudanças todas e lembre-se que o desejo e o prazer nascem muito mais no nosso cérebro do que nos nossos ovários. E sim, o sexo pode ser bom, gostoso, de qualidade em qualquer fase da nossa vida. Basta buscarmos informações adequadas e usarmos os recursos disponíveis.
Não existe hormônio que desperte o desejo em uma relação desgastada, descuidada. Mas o cuidado com seu próprio corpo, informação adequada sobre sexualidade e busca dos recursos disponíveis são importantes para que a menopausa não signifique sexo ausente ou insatisfatório.